Minha amiga, o abacaxi e o marido dela – um caminhoneiro
29 de julho de 2017
Nunca parei pra pensar como os abacaxis à venda, na Ceasa de Foz, foram parar ali. Até uma amiga me pedir pra homenagear o marido dela, um caminhoneiro (esta semana foi dia de São Cristóvão, protetor dos caminhoneiros).
Ela me enviou um relato de uma das viagens em que acompanhou o marido e queria que, a partir disso, eu produzisse algo... (com certeza, nunca imaginou que eu começaria pelo abacaxi, MAS É QUE O ABACAXI É A ESSÊNCIA DA COISA TODA.)
Marcieli e o marido, Júnior, saíram de Foz por volta das 9h da manhã. O destino era São José do Rio Preto/SP. Carga de farinha. Rodaram aquele dia inteiro:
- “Júnior parou para dormir 1 hora da madrugada e, às 2 horas, já retornou a acelerar o cargueiro” – ela contou
Tem gente que adora estrada. Eu não vejo a hora de chegar! Portanto, pra mim, a homenagem já tá feita! Parabéns por viajar! Ponto. Mas ainda tinha mais...
O despertador do Júnior é a pessoa que espera pela carga.
- “Ficamos em frente à empresa aguardando o chamado, o que aconteceu com os funcionários batendo na porta do caminhão para acordá-lo as 7h50 da manhã. Enquanto descarregavam a carga, nós lavamos o rosto e escovamos os dentes na “barrica ou corote” do caminhão.”
Já vou pensando nos detalhes...
No fim da tarde, tinha outra entrega de farinha pra fazer.
- “Ali tinha apenas 1 “chapa” e o motorista que rodou a noite inteira fez o descarregamento junto com esse “chapa”. Foram descarregados 5 mil quilos num intervalo de 1 hora. E eu, que apenas fui passear, acabei ajudando meu marido a dobrar a lona cheia de farinha e vi o quanto ele sofre na estrada, me vieram lágrimas nos olhos.”
Terminou a viagem de ida. Hora de voltar.
O abacaxi entra na história.
O marido de Marcieli, proprietário de um boxe na Ceasa de Foz, verificou com os sócios como estava a venda do abacaxi. Tava em alta! Então, o caminhão voltaria carregado de: ABACAXI. Mas pensa num PEPINO!
- “Às 5 da madrugada estávamos de pé para ir para a roça de abacaxi fazer o carregamento. Já na balança demos carona para um cargueiro (homem que carrega o caminhão). A carga foi feita por 8 homens: 2 ficam em cima do caminhão, empilhando os abacaxis e os outros 6 homens ficam na lavoura. Eles catam, um a um, os abacaxis. Colocam no carrinho de mão para levar até o caminhão e lançá-los para os que estão em cima do caminhão. Os abacaxis são assentados como tijolos. É uma obra de arte!”
Não bastasse o trabalho “formiguinha”, na viagem de volta uma surpresa ruim:
- “Soubemos que o preço do diesel tinha aumentado em 31 centavos por litro, uma infelicidade para os caminhoneiros.”
O casal e os abacaxis - empilhados na carroceria - chegaram a Foz, por volta das 22h30. Ele, provavelmente feliz por ter cumprido mais uma missão. Ela, de boca aberta com tudo o que viu. Finaliza:
- “Vi o quanto sofrem todos os caminhoneiros, com sono e com horários que adentram as noites. Por eles passam muitos irresponsáveis e imprudentes, como motoristas com faróis do veículo desligados. Concluo que, pra ser caminhoneiro, tem que amar muito essa profissão. Nós, mulheres de motoristas, devemos amá-los, dar apoio e curtir muito a presença deles enquanto estão em casa, pois logo a viagem deles continua no trecho...
Admiração profunda de uma esposa!
Marcieli de Lima”
Nunca mais vou olhar para o abacaxi da Ceasa do mesmo jeito.
Fica aqui a minha homenagem aos caminhoneiros e tbm a este casal: “só julgue os meus passos, depois de calçar os meus sapatos”, disse alguém, algum dia.
Ahhhhh, o amor...
Jean e Mel
30 de dezembro de 2017
“Voltaemeia” me pego curiosando alguma cena.
Hoje, vi um rapaz catando latinhas na praia.
Normal.
Vi um rapaz catando latinhas e guardando as latinhas num saco plástico enorme. Tamanho família mesmo!!!!
Ele brincou com meu filho. Foi algo espontâneo, sem intenção de querer alguma coisa em troca. De repente, puxou uma mochila - que carregava em volta do pescoço - e mostrou algo para o Pedro.
O meu pequeno deu risada, surpreso!
O rapaz seguiu andando.
Não me aguentei. Peguei a câmera e fui atrás.
- Vc permite que eu tire uma foto disso que vc está carregando aí?
- Sim. (sorriu)
- Espera aí que vou me posicionar melhor.
- Tá bom, moça.
- Este saco de latinhas deve ser pesado, né?
- Sim, moça, é bem pesado.
- Então por que, além disso, vc carrega essa mochila com um CACHORRO dentro?
- Ahhh! (amoleceu o olhar). Ela é minha companheira. Não posso deixar ‘ela’ sozinha. Eu tive outro cachorro por muitos anos (não me lembro ao certo se falou 6 ou 8 anos), mas ele morreu atropelado. Gastei R$ 800 reais tentando salvar. Encontrei essa daqui dentro de um saco plástico, à beira da BR. Acho que alguém jogou lá pra ela morrer. Já tô com ela há quatro meses.
- Qual seu nome?
- Jean.
- E o dela?
- Mel.
- Tá bem. Obrigada, Jean! Desculpe o incômodo.
- Por nada. Mais alguma pergunta?
- Não, não... Era só isso mesmo.
- Vou seguir, tá, moça?
Claro, Jean. Pode seguir! Na verdade, vc vai, mas sua história fica.

Gersonil, homem que dormia encolhido
19 de fevereiro de 2018
Conheci Gersonil há uns meses, em Foz do Iguaçu/PR. Nunca imaginaria que a nossa conversa tomaria o rumo que tomou. A partir dali, quando deito na cama e estico as pernas, lembro da cena que ele me mostrou. Não tem como esquecer. Acredito que vc vá sentir o mesmo.
Eu e meu parceiro de voluntariado Giovani Zanardi (repórter cinematográfico) estávamos produzindo um vídeo sobre o The Street Store, um projeto bem bacana em que voluntários montam uma “loja” de roupas a céu aberto para atender moradores de rua.
O sol ainda não tinha nascido. Gersonil tava sentado num dos bancos da praça em frente ao Bosque Guarani. Braços cruzados, pernas esticadas e cruzadas e um olhar insistente pro rumo da “loja” de rua. É a típica cena que desperta curiosidade, pq eu tava procurando justamente um personagem pro vídeo que faríamos.
- Vc veio pra ser atendido na “loja” de rua?
- Sim. Ouvi o barulho e levantei pra ver o que estava acontecendo.
- Vc tava dormindo aqui na praça?
- Não, ali ó
- Onde?
- Ali ó
Ele tava apontando para uma espécie de caixa de concreto aparente que fica no meio da praça. Pelo que entendi, é uma caixa de passagem dos fios de energia, de mais ou menos 1 x 0,80.
- Você tava dormindo em cima daquela caixa?
- Não. Dentro.
- Poderia me mostrar?
Uma lona de propaganda era a “porta”. Lá dentro, uns panos, alimentos, documentos... Tudo amontoado.
- Ainda não entendi, Gersonil. Como é que você dorme aí nesse cubículo?
Ele se inclinou e, na maior da boa vontade, se acomodou da maneira como faz todas as noites.
Foi impressionante e triste.
Tínhamos que registrar pra que mais pessoas tivessem a lição que tivemos naquela manhã. Faltava muita coisa: espaço pra se esticar, família, dinheiro, roupa, alimento... Mas o semblante era de alguém grato pelo pouco.
Hoje cedo voltei lá pra procurar pelo Gersonil - o homem que dormia encolhido. Queria postar a história dele, porque o vídeo ficou pronto. Caminhei pela praça e vi a “casa” do Gersonil vazia. Lá longe vi aquele mesmo olhar que tinha visto meses atrás.
- Oi, Gersonil. Lembra de mim?
- Não.
- Filmei sua “casa”, uns meses atrás...
- Ah, sim! Vi que vc tava “caçando” ela. Tive que sair dali...
- E vc tá dormindo onde agora?
- Naquela calçada ali.
- E as suas coisas?
- Carrego comigo.
Já tinha pouco. Agora, quase nada.
Registro sua história, Gersonil, e registro meu respeito pela grande lição que me ensinou: a de ser feliz com o que está ao nosso alcance.
Seu Walter, do Bixiga
26 de fevereiro de 2018
Não foi um encontro ao acaso.
Eu estava de olho nele desde o ano passado, quando fui fazer o curso de Jornalismo Literário, em São Paulo. Tinha ouvido, passando em frente a uma cantina italiana, uma “bateção” de panelas ensurdecedora, orquestrada por um senhor que já não tinha mais idade para aquilo. Cena daquelas que fazem a gente esfregar os olhos. Era muita energia! Instantes depois, ele se sentou num banco de madeira, do lado de fora da cantina. Estava entregue. Passei por ele, mas naquela ocasião não tive coragem de interromper o descanso.
Desta vez, não me escaparia.
Cantina da Conchetta. Bairro do Bixiga. São Paulo.
- Bom dia – cumprimentei a funcionária
- Este senhor das fotos (da parede) está aqui, agora?
- Não. Está na outra casa, aqui pertinho.
Mais uns metros caminhando pela calçada. Entrei devagar, como que rastreando o ambiente. Ele estava sentado. Sorri por dentro. Havia uma moça ao lado dele, com postura de quem estaria disposta a auxiliá-lo no que precisasse.
Tentou levantar. Precisou de ajuda. O olhar inquieto já estava em mim, cliente ainda não atendida.
- Bom dia. Já almoçou?
- Não. Ainda não.
- Então fique à vontade – disse ele.
Era tudo o que eu queria ouvir.
- O senhor trabalha aqui?
- Há 40 anos.
- Nossa! Desde antes de eu nascer.
Entraram as risadas, no tom italiano de ser - dele e meu. Outro senhor, no teclado, ambientava a coisa toda, com a “musicaiada” italiana.
- Como é o seu nome?
- Walter.
Pausa.
- Eu sou o Poderoso Chefão!
Gargalhadas!
Seu Walter fala “aos poucos”. Há pausas no conversar, mas, certamente, não no pensar. Tem o andar curvado. Nos pés, sandálias do tipo franciscana e o avental estampando a prova do que disse: “Poderoso Chefão”. As mãos são bem inquietas, passeiam e voltam a se posicionar pra trás, na altura da lombar.
Seu Walter impõe uma missão complicada à moça que o acompanha: é um inquieto in natura. Conversa com um, entrega cardápio pra outro, vai ao bufê, brinca com a criança, volta à minha mesa (isso num intervalo de 5 ou 10 minutos).
- Já pediu?
- Já.
- Posso tirar o cardápio?
E já levou pra outra mesa. “Fiquem à vontade! Temos mesa de antepastos, rodízio, a la carte...”
- Quantos anos o senhor tem? – perguntei.
- 84.
- Tem alguuuuma vontade de parar de trabalhar?
- Não, não. Se não eu morro.
Não falei pra ele, mas acredito.
Em seguida, pôs as luvas, retirou-se e voltou com duas tampas de panela imensas nas mãos!!!!
O tecladista já sabia do que se tratava. Seguiu o repertório combinado. Seu Walter começou a bater as tampas de alumínio e o que vi foram clientes parando de mastigar, largando os talheres e pegando os celulares. Não dava pra não registrar.
A “bateção” é contínua, tem força, inacreditável!!!!!
Depois da euforia inicial, muita gente enxugou o rosto.
Terminada a apresentação, Seu Walter silenciou e voltou a sentar, no caixa, ao lado da minha mesa. Minutos depois, tentou levantar sozinho. Não conseguiu. Pediu ajuda, tentou de novo e sentiu dor ao pôr-se de pé. Eu estava cuidando, de canto de olho. Antes que eu ficasse sem graça, ele se antecipou:
- Travei - dando risada!
- Chega, né, seu Walter? – tive que rir também.
- Faço seis desses por dia. Foram só três até agora.
Cochichei com a moça, depois:
- Não deve ser fácil para você, hein?
E ela:
- Isso quando ele não resolve correr.
- Como assim: correr?
- Às vezes ele corre pela cantina, batendo as tampas.
Seu Walter e a algazarra com as tampas são patrimônio do Bixiga. Há muitas reportagens impressas que viraram relíquia na parede da cantina: “BIXIGA SE ESCREVE COM W”, “UM PAULISTANO DO BARULHO”, “O GIGANTE PAULISTANO”.
Vim embora, seu Walter, mas trouxe comigo o panfleto do “Panelaço Milagroso”. Já em casa, escrevendo este texto, olha só o que leio: “Forma de executar: acorde pela manhã e antes mesmo de tomar o café pegue duas tampas de panela de alumínio tamanho 34, coloque uma em cada mão e rode as mesmas por cinco minutos, após rodá-las descanse mais cinco, tome seu banho, café, faça as suas atividades diárias e SEJA FELIZ!”
Capito? La vita è bella, né, seu Walter?!?!
As flores de dona Inês
11 de abril de 2018
O sorriso de dona Inês sorriu pra mim, logo cedo.
Eu tava chegando de viagem, cansada e com fome.
- Eu quero comprar uma flor! - gritei, baixando a janela do carro.
- Ah tá! Eu espero a senhora estacionar. - ela disse.
Magrinha, chapéu, já com uma certa idade. Cesta cheia de maços de flores pendurada no braço.
- Tem rosa?
- Tem!
- Que cor?
- Vermelha e cor-de-rosa... Tem astromélia também!
(Certeza que ela lê pensamentos!)
- Então, quero uma astromélia. Branca.
Os macinhos são bem simples, bem ajeitadinhos! E foi justamente isso que me fez querer um. Sabe aqueles macinhos que vó faz? Vó cata uma florzinha daqui, umas folhas dali e vai “maçarocando” na mão com um pedaço de jornal ou de papel qualquer...
É assim no Domingo de Ramos, quando chega a capelinha em casa, quando vamos ao cemitério rezar por alguém.
Pronto! Momento feliz do dia! Lá se vai a dona Inês, depois de colocar tanta lembrança boa na minha vida.

Agenor, o gari artista da praia
4 de janeiro de 2018
Tinha ouvido falar sobre um gari que fazia desenhos na areia enquanto passava com a equipe de limpeza. Eu só via os desenhos. Nunca tinha tido o privilégio de encontrá-lo. Até que neste dia, em 2018, minha irmã me avisou que ele estava na praia e deu certo: conheci Agenor, o artista da areia de Balneário Camboriu!
















